Nenhum trabalho fala por si só.
Por um tempo, todo mundo acredita que o resultado basta.
Talvez você também já tenha acreditado nisso.
Ao longo dos anos, você acaba percebendo que existe uma régua invisível:
De um lado, aqueles que sabem traduzir seu próprio valor, fazendo da própria voz o seu principal produto; do outro, aqueles — como muitos de nós — que acreditam que o trabalho basta, sem necessidade de maior exposição.
Se equilibrando sobre essa corda bamba, estão os comunicadores.
Pessoas que flertam com ambos os lados, tensionam papéis e revelam suas vozes e seus labores.
E acredito que, como acontece com quem cria em demasia, muitas vezes nos escondemos atrás de um trabalho que damos por completo.
Como se o resultado sozinho fosse capaz de dizer tudo.
A autoimagem
Ao pensar sobre imagens e mensagens, o caso de Gustave Courbet sempre me pareceu particularmente icônico.
Reconhecido como um naturalista excepcional, pintou corpos em trabalho ou em sofrimento sem poupar falhas e sem suavizar imperfeições. Ao se autorretratar, Courbet escolheu se pintar como uma de suas mais belas figuras.

Le désespéré — Gustave Courbet
Autoestima ou dissociação? Nunca saberemos. Mas o quanto essa “voz” — ouvida através das pinceladas dedicadas — transmite a sua verdade, a sua intencionalidade. Courbet, dedicado em retratar a sua visão, imprime nela sua própria leitura da realidade.
Esse episódio da história da arte me traz ao presente com uma clareza quase incômoda:
colocamo-nos para o mundo da forma como gostaríamos de ser reconhecidos.
Diferentemente de um pintor, não nos representamos da mesma maneira — ao menos não nas mesmas proporções. Essa ausência se torna uma falha relevante quando entendemos como o mercado percebe e decide engajar-se com uma marca.
Sendo assim, o que mudou em nossa forma de pensar sobre o quanto o trabalho realmente nos representa? Ou como acreditamos que isso deve ser observado por todos.
Bom, talvez a primeira constatação seja a mais óbvia:
Todos nós, além de criadores, também somos comunicadores.
A constatação mais dura ainda é que sim, podemos fazer sem que o objetivo seja a popularidade. Mas se ninguém sabe que existe, os fins comerciais ficam limitados e nunca saberemos até onde uma iniciativa pode chegar.
Sem dúvida, você já deixou de ir a um restaurante porque ele não publica nada há seis meses — criando aquela pulga atrás da orelha sobre se o lugar sequer está aberto.
A segunda constatação vem logo em seguida: todos somos, em alguma medida, artistas.
Aqui me refiro à ‘Arte’ como em “ars”, do latim, no sentido de ofício. E técnica, como em ‘techné’, do grego, como ideia de método e saber fazer. Difícil não imaginar o Mario Sergio Cortella nessa hora da etimologia das palavras.
Independentemente da área, do serviço ou da natureza do que fazemos, criar e aplicar método é uma constante.
Assim, como é constante a responsabilidade de mostrar e nos posicionar a partir daquilo que criamos.
A régua que traçamos em nossas análises iniciais — um corpo que trabalha tão distante e distinto da voz que propaga as ideias próprias — não passa de uma ilusão.
Voltando a este pensamento, ele se prova insuficiente para a realidade pela constatação simples de:
Uma voz não existe sem um corpo,
um corpo não é notado sem sua voz.
A falsa noção que poderíamos separar elementos essenciais nossos — como a ideia de separar racional e emocional, consciente e inconsciente da própria mente — como se ambos não existissem de maneira dependente e ecossistêmica entre si.
Um equilíbrio natural, que, na falta de um, o outro desmorona em si mesmo.
E ao encarar o equilíbrio necessário entre corpo e voz, existe mais uma clareza:
A voz não é relevante se não houver alma.
O corpo que fala
O melhor “corpo” de trabalho não se sustenta sem a alma e voz das pessoas envolvidas.
Essa alma é a essência que nos colocamos por inteiro — de corpo e alma.
Nossa alma assume nosso maior desejo antes mesmo que possamos compreendê-lo.
Guiando nossas palavras da maneira mais integral.
É tanto dedicação, quanto vontade.
Tanto intenção, quanto motivação.
Tanto preparo, quanto vocação.
Alinhar corpo, alma e voz é se fazer presente.
Uma pretensa isenção dessa voz — talvez até numa tentativa de alteridade — torna-se vazia.
A defesa do trabalho desaparece quando quem o executa se ausenta.
O que muitas vezes pode ser uma intencional postura “low-profile” na prática termina sendo mais um caso de “quem não é visto não é lembrado”.
E, definitivamente, isso não nos basta.
Nós somos feitos das nossas conexões e dos diálogos que surgem em meio a essas vozes.
E o que me toca, antes de qualquer coisa, são as pessoas envolvidas.
Não me lembro de todas as marcas que vi no último ano.
Não lembro dos outdoors que mais chamaram minha atenção.
Nem de um projeto incrível que vi no primeiro semestre.
Mas me lembro das pessoas com quem trabalhei.
E das pessoas de quem busquei inspiração.
Às vezes, basta uma pequena foto em uma newsletter:
rostos de quem sei que cria, fala e partilha o próprio trabalho.
Um bom trabalho, sozinho, não é suficiente.
Precisamos das pessoas.
Pois esse ecossistema só se faz completo com todos os elementos.
O ser antropofágico
Falar sobre o que fazemos é importante;
Ao aprendermos a dialogar mais sobre o que fazemos, temos a chance de abrir ao mundo a nossa forma de pensar. Isso nos faz presentes para trocar experiências enquanto continuamos aprendendo.
Somos artistas dos nossos próprios assuntos.
E devemos assumir a posição de estar presentes.
Do contrário, nos isolamos em aquários estéreis, sistemas fechados, impossibilitados da troca natural que ocorre com o todo.
Ninguém é autodidata no sentido absoluto.
Buscamos e aprendemos das outras pessoas e sempre encontramos aqueles que já iniciaram esse movimento de presença.
Falamos de um ecossistema vivo, essa tríade similar a tantas outras.
O começo, meio e fim, em um movimento cíclico e infinito.
A palavra, intenção e a escuta, que formam o diálogo.
Nossa provocação aqui é simples:
Seja verdadeiro com você e com o que você faz,
sem se esconder, ou ter medo de onde sua voz possa chegar.
Seja real, presente e aberto às discussões que surgem.
Assim, também podemos alinhar a nossa tríade — corpo, alma e voz.
Na nossa própria direção.
Hoje entendemos melhor o poder de estar presente:
nas mesmas salas, nos mesmos eventos, nos mesmos momentos.
Esperamos nos encontrar por aí.
De corpo, alma e voz presente.
Ilustração de capa: Laura Dias.




